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Andrea D’Atri em Madri: “Vamos lutar para que haja mais mulheres empresárias ou por terminar com a exploração capitalista?”

Nesta terça-feira, aconteceu na Universidade Autônoma de Madri (UAM) a primeira conferência da feminista marxista Andrea D’Atri durante sua visita ao Estado Espanhol.

quarta-feira 6 de fevereiro| Edição do dia

Andrea D’Atri, fundadora do Pão e Rosas e dirigente do PTS na Frente de Esquerda da Argentina (organização irmã do MRT no Brasil) está realizando um tour por vários países da Europa, apresentando seu livro “Pão e Rosas” que foi recentemente traduzido para o francês e o alemão – já contava com uma tradução para o italiano.

A conferência, realizada na Faculdade de Filosofia e Letras da UAM, foi apresentada por Lucía Nistal, dirigente do Pão e Rosas no Estado Espanhol, pesquisadora bolsista dessa faculdade e referência do movimento universitário de referendos antimonárquicos que recentemente realizou uma exitosa consulta na dita universidade.

Niltal deu início à conversa fazendo referência à importância do movimento de mulheres no Estado Espanhol, que teve um marco com a massiva greve de mulheres do 8 de março em 2018 e que deu lugar a massivas manifestações contra a justiça patriarcal e a violência machista no último ano. Também destacou a importância dos encontros estatais de mulheres que vem preparando a próxima greve do 8 de Março, onde atua a agrupação de mulheres Pão e Rosas, presente em vários territórios do Estado Espanhol.

A jovem referência do Pão e Rosas mencionou também algumas das posições políticas e programáticas que, como agrupação de mulheres anticapitalista, defendem no movimento de mulheres. No marco do ascenso da extrema direita e a direita com um discurso “anti gênero”, expôs a necessidade de evitar as armadilhas do “mal menor”. Nesse sentido denunciou a hipocrisia do governo do PSOE que se autodenomina o “governo mais feminista” do mundo, quando sustenta políticas neoliberais e xenófobas que condenam à precariedade, à violência e à incerteza a maioria das mulheres pobres, migrantes e jovens.

Andrea D’Atri começou sua intervenção fazendo um percurso histórico com a relação entre patriarcado – com milhares de anos de antiguidade – e o sistema capitalista. Apontou que o capitalismo, um sistema que se baseia na exploração de milhões de pessoas e no desenvolvimento de monstruosas desigualdades, tem preservado as relações patriarcais de opressão sobre as mulheres para maximizar essa exploração.

Em particular, explicou a partir da teoria marxista do valor-trabalho, a relação existente no capitalismo entre o trabalho não pago das mulheres no lar, necessário para a reprodução da força de trabalho, e o âmbito da produção capitalista. “O capital necessita da reprodução da força de trabalho para extração de mais valia, mas a maior parte das tarefas que permitem essa reprodução se realizam no âmbito dos lares, como trabalho não pago e não reconhecido como tal, e que recai fundamentalmente sobre as mulheres”.

D’Atri analisou a grave contradição que o neoliberalismo representou para milhões de mulheres em todo mundo: a conquista de novos direitos e de “maior igualdade diante da lei”, ao mesmo tempo que aprofundava para a maioria a “desigualdade diante da vida”, com o aumento da precarização do trabalho, a pobreza, o aumento da violência e a incerteza sobre o futuro.

Frente às propostas do feminismo liberal, D’Atri colocou a pergunta: “vamos lutar para incluir mais mulheres nos postos de direção das empresas para que possam explorar outras pessoas, ou vamos lutar para terminar com este sistema que se baseia na exploração de milhões de seres humanos no mundo, onde as mulheres sofrem as piores consequências?”

Em relação ao crescimento da extrema direita na Europa e o florescimento de ideologias reacionárias que buscam contrapor nativos com imigrantes, trabalhadores precários contra trabalhadores efetivos, homens contra mulheres, etc., apontou que esses são os mecanismos habituais que o sistema capitalista e patriarcal utiliza para dividir a força dos oprimidos e explorados. Frente a essa alternativa, defendeu a necessidade de “reconstruir a força de um sujeito transformador a partir da classe trabalhadora”. Uma classe operária que hoje, mais do que nunca na história, tem rosto de mulher, já que 50% da força de trabalho mundial é feminina.

Por último, chamou todas as presentes a somarem-se à agrupação internacional de mulheres “Pão e Rosas” e a dedicar tempo à tarefa mais entusiasmante que pode existir nesta época: a luta coletiva pela transformação revolucionária da sociedade.

As atividades de Andrea D’Atri em Madri continuaram com uma plenária junto às militantes do Pão e Rosas na quarta-feira (6) e um ato central na quinta-feira (7) a realizar-se no Centro Gallego de Madri. Nesta atividade, participará de um debate sobre “O movimento de mulheres frente ao ascenso da extrema direita” junto com Pastora Filigrana, advogada sevilhana e ativista cigana pelos direitos humanos, feminista, membro do SAT e Nuria Alabao, antropóloga e jornalista, integrante da Fundação dos Comunes.

A visita de D’Atri no Estado Espanhol continuará na semana seguinte com duas atividades em Barcelona, antes de continuar seu tour pela França e Alemanha.




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