OPINIÃO

Brexit: o que há de Lehman Brothers?

A conjuntura e a longo prazo. Sobre os problemas mais difíceis de prever. O cenário do Brexit e suas causas, o que vem depois. O lugar da Grã-Bretanha. Efeitos da desvalorização da libra e forças competindo.

Paula Bach

Buenos Aires

quinta-feira 30 de junho de 2016| Edição do dia

Ainda que finalmente o Brexit tenha sido o voto majoritário no Reino Unido, ainda há muita água para correr sob essa ponte. Os resultados imediatos são conhecidos: a libra esterlina desmoronou chegando a um mínimo desde 1985 - mesmo que a aposta de Soros em 1992 a fez cair de forma mais pronunciada -, as bolsas do mundo registraram uma sexta-feira sombria e em alguns mercados - como os monetários ou os de ações bancárias europeias - os preços se alteraram mais dramaticamente do que durante o “crash selvagem” de 2008, segundo o Financial Times.

Algo disso - bastante previsível no caso de um resultado favorável ao “Leave” - havíamos antecipado com o Petróleo, dívidas, Brexit… Os movimentos descendentes continuaram na segunda, e ontem as bolsas protagonizaram a realização de lucros. É imaginável também que nos próximos dias, semanas e talvez meses, continue uma vasta agitação dos “mercados”. E o problema é que quando falamos de meses, a conjuntura começa a mesclar-se com o mediano e longo prazo. É quando o óbvio e evidente começa a dar lugar ao profundo e mais difícil de prever: que cenário inaugura o Brexit? Em que medida poderia dar lugar a uma situação semelhante à queda de Lehman Brothers? A resposta - talvez mais que de costume - está longe de ser fácil.

O terreno e os sonhos

Em primeiro lugar, é necessário reconhecer o terreno. O cenário no qual ocorre o início do processo de saída do Reino Unido da União Europeia é nitidamente mais dramático que aquele em que se formou a crise de 2007 nos Estados Unidos e a posterior queda do Lehman no fim de 2008.

O “estancamento secular” - como o chamam os neokeynesianos - ou, dito de outro modo, um crescimento débil recarregado de estímulos monetários e taxas de lucro historicamente baixas, tendências deflacionárias, investimento muito baixo e produtividade estancada - apesar dos grandes avanços tecnológicos - combinado com tensões financeiras constantes é o formato que adotou a tênue recuperação pós-crise de 2008/09 nos países centrais. Como expressamos em oportunidades anteriores, a China - a contratendência principal de então e pivô “real” dos estímulos financeiros no centro - desenvolveu já suficientes contradições internas e externas de como seguir cumprindo na atualidade um papel semelhante. A ameaça de uma segunda temporada recessiva se desliza para a economia mundial.

E a inclinação pelo Brexit com sua carga xenofóbica é, como defendemos desde esta coluna, parte do mesmo enredo. Junto a outros cenários de polarização e crise dos regimes políticos como o fenômeno Trump e sua contrapartida - Sanders - nos Estados Unidos, Marine Le Pen e a onda de greves e mobilizações na França ou o crescimento do movimento Cinco Estrellas italiano, entre vários outros, são consequência de oito anos nos quais a Grande Recessão foi sucedida por um longo período de estancamento. Questão que piorou substantivamente as já deterioradas condições de existência - nos “bons” anos neoliberais - de amplas franjas operárias nos países centrais. Deslocalização produtiva, desindustrialização, crescimento acelerado da desigualdade, utilização perversa da imigração como mão de obra barata são todos fenômenos que se arrastavam desde as décadas precedentes. Entretanto, seus efeitos se ampliaram e alcançaram um primeiro plano devido à combinação de baixo crescimento e as grandes limitações do acesso ao consumo através do crédito que havia prevalecido como atenuante nas décadas anteriores. Dito de outro modo, todas essas condições caíram por terra com o “sonho americano”- entendido genericamente - nos países centrais.

Brexit, e depois?

Para que comecem a correr os dois anos que - como mínimo - demanda a saída do Reino Unido da União Europeia e se negociem as condições, o governo britânico deve invocar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, ou seja, deve declarar sua intenção de abandonar a União. Apesar da pressão da UE, não está claro ainda quando se formalizará essa declaração e o saliente Cameron havia expressado sua intenção de deixar a tarefa nas mãos do próximo governo que deveria conformar-se antes de Outubro.

Menos claro por agora é se, como resultado da negociação, o Reino Unido seguirá fazendo parte do mercado único europeu ou se tentará alcançar um acordo de livre comércio. Permanecer no mercado único - opção que defendem os partidários internos e externos do Remain - permitiria aos bancos com sede em Londres - na City, em particular - manterem o “passaporte da União Europeia”, isto é, continuarem operando em todo o mercado europeu sem restrições. Uma grande quantidade de entidades de todo o mundo, como Morgan Stanley, Bank of America, Nomura, Lloyds, Barclays, Citigroup, entre muitas outras, estão instaladas na City - na qual trabalham 300 mil pessoas - por esse motivo.

A grande contradição é que manter o “passaporte” implicaria aceitar as regras da UE, entre elas o “livre movimento de pessoas”, quando a oposição a esse último aspecto resultou o argumento central do triunfo do Leave. Referindo-se aos efeitos do Brexit sobre a economia mundial, disse um artigo do The Economist que a Grã-Bretanha poder negociar com a União Europeia e de quão rápido o fizer muito depende do tipo de acordo comercial. Se a Grã-Bretanha conseguir um acordo rápido sem demasiadas limitações no acesso ao mercado comum, as piores derivações para a economia mundial poderiam não se fazer realidade, aponta. Em princípio, esse cenário possível não pareceria o mais provável na opinião dos “mercados”, segundo o semanários.

Contudo, tampouco pode ser descartada uma saída bastante mais distorcida. O editorialista do Financial Times, Gideon Rachman, recorda que Boris Johnson - um dos mais proeminentes instigadores da campanha pelo Leave - nunca foi um teimoso “Leaver” e especula que seu objetivo principal teria sido ser Primeiro Ministro. Rachman recorre às palavras do ultraconservador Johnson quando, há uns meses, dizia: “Há somente uma maneira de conseguirmos a mudança que necessitamos, e é votar por sair, porque toda a história da UE mostra que apenas escutam um povo quando diz não”. Ou seja, agregamos, uma espécia de “golperar para negociar” “à grega” ou, melhor dizendo, “à la Tsipras”, mas com imenso poder de fogo. Na visão de Rachman, uma negociação, na qual a União Europeia conceda ao Reino Unido um “freio de emergência” em matéria de livre circulação de pessoas, após o qual se convoque um novo referendo pelo Remain, não pode ser descartada.

É inútil desvincular essa posição da campanha pela permanência à qual adere fervorosamente o Financial Times de seu caráter de fiel representante do capital financeiro, mas não deixa de ser uma variante possível. Mais além de qual seja finalmente a negociação, a “apertada” da UE para apurar a saída tem todo o aspecto de uma contraofensiva sobre o ponto débil da contraparte. Veremos.

Voltando ao território

Nitidamente, as consequências sobre a economia mundial serão muito distintas segundo o tipo de solução que o assunto alcançar. No entanto, a roda já começou a rodar e o faz - como foi exposto mais acima - sobre terreno barroso. É certo que a Grã-Bretanha, apesar de ser a quinta economia mundial e a segunda da União Europeia, representa, como mostra um artigo do The Economist, 3,9% da produção internacional. Não podemos, por isso, comparar os efeitos do processo do Brexit com as eventuais derivações de uma comoção similar, por exemplo, nos Estados Unidos ou na China. Entretanto, como também assinala o semanário, o assunto tem lugar num contexto de crescimento lento nos Estados Unidos e no marco de grandes preocupações sobre a capacidade da China de escapar da sombra de uma montanha de dívidas. Além disso e como também explica o The Economist, a economia britânica ocupa um lugar preponderante na Europa, é uma “consumidora confiável” e um grande centro de “arrocho” do continente. Resulta o suficientemente grande a possibilidade de uma muito provável recessão ter efeitos significativos sobre uma debilitada economia europeia.

Porém, por outro lado, há de se ter em conta que a Grã-Bretanha representa a segunda praça financeira do mundo - depois dos Estados Unidos - e seus bancos são os mais afetados nesse processo. Assunto que se torna especialmente preocupante não apenas porque falar da questão bancária na Grã-Bretanha é falar dos bancos internacionalmente, como também porque - vale a pena recordar - os bancos personificam na atualidade um elo particularmente débil da economia mundial, conforme tratamos faz vários meses na Comoção bancária e colapso petroleiro. O que há por trás? É certo que os “policy makers” e seus banqueiros centrais aprenderam muito desde 2008, como tranquiliza Gillian Tett desde o Financial Times. Trata-se de uma bagagem - agregamos - que se somou às “lições” recebidas em 1929 em uma “escola” que durou até 1945… Mas também é certo que ao lado das “finanças” e das medidas monetárias, extende-se a economia real. E que essa economia real - ou para dizê-lo mais nitidamente: alguma fonte extraordinária de lucros à que podem migrar enormes massas de capital fabricadas de maneira fictícia na bolsa e nas instituições financeiras - é condição necessária para a eficácia relativa das políticas monetárias.

Isso é o que - como expressamos em múltiplas oportunidades - começou a falhar por razões que falam do estado da “economia real”. Questão que redunda em que, se as medidas monetárias expansivas resultam impossíveis de serem retiradas, provêm por sua vez de uma fonte cada vez maior de instabilidade. Dali as intenções falidas da Fed de retornar a uma “normalidade” impossível. E dali também o território totalmente desconhecido para a teoria econômica oficial das “taxas de lucro negativas” que começaram a explorar o Japão, a Eurozona e que - um pouco esquizofrenicamente - costuma insinuar Janet Yellen.

Nesse contexto, as “lições aprendidas”, ainda que não insignificantes, têm pouco para dizer sobre o futuro e o Brexit - dependendo sempre da evolução dos acontecimentos, logicamente - significa uma nova fonte de alto risco.

A profecia

A desvalorização da libra esterlina tem um efeito dobro. Por um lado, cria, naturalmente, pressões recessivas internas e pode provocar o desfinanciamento dos grandes déficits correntes britânicos. Mas, por outro lado, parte carrega a notável potencialidade de provocar os efeitos não desejados de uma eventual subida das taxas de lucro nos Estados Unidos.

A desvalorização da libra gera uma saída de capitais do Reino Unido e uma incerteza crescente que estimula a afluência dos capitais internacionais para a praça relativamente mais segura: os Estados Unidos. Esse mecanismo reavalia o dólar e por via dupla - monetária e de aversão ao risco - traz para baixo o preço das matérias-primas. Os dois aspectos repercutem negativamente sobre os dois pontos mais sólidos da economia “real” norteamericana: exortações e petróleo. Como aponta Jeff Madrick, no The Nation, a valorização do dólar frente à libra e ao euro suprime exportações norteamericanas, provocando recessão nos Estados Unidos. Por sua vez, o setor do shale oil e shale gas constitui uma fonte chave de atração do debilitado investimento norteamericano e a queda dos preços - logicamente - contrai os lucros e o investimento, como foi observado durante os meses nos quais o petróleo acumulou sua pior queda. A reavaliação do dólar associada a uma prolongada desvalorização da libra poderia ademais ter consequências na China, alentando a saída de capitais que também provocaria uma desvalorização do Yuan e mais pressão sobre o dólar, piorando por sua vez a situação das exportadora do resto dos competidores.

Do modo que continuar a desvalorização da libra, os efeitos que a Fed buscou evitar mantendo as taxas de lucro baixas poderiam desenvolver-se de todo modo. Pensando em um cenário extremo, se trataria do pior de todos: o risco financeiro de taxas zero combinado com todas as pressões de uma subida das taxas.

Claro que como uma subida de taxas nesse contexto resulta impensável e que inclusive uma insinuação poderia ter efeitos muito pouco desejados, Jamet Yeen guardará seu jogo da dupla mensagem ao menos até que se tranquilizem as águas no Canal da Mancha.

A indefinição em que se encontra o futuro do Brexit impede por agora um prognóstico mais ou menos acabado sobre como repercutirão efetivamente esses movimentos. De todo modo, pode arriscar-se que quanto mais pesada, extensa e longínqua do “Remain” resulte a resolução da relação entre o Reino Unido e a UE, a desvalorização da libra conseguirá impulsionar com maior violência as tendências mencionadas. Pelo contrário, uma solução mais rápida e “consevadora” - de não ocorrer nenhum fato catastrófico no meio - poderia “limitar os danos”. Os preços do petróleo e a da soja, assim como a direção do fluxo de capitais - fatores chaves que influem sobre a economia Argentina - refletirão seguramente grande parte da dinâmica dessas forças em competição.

Tradução: Vitória Camargo




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