Gênero e sexualidade

[DOSSIÊ] O FEMINISMO ANTIPUNITIVISTA

Não nos calamos mais, e depois?

O movimento internacional de mulheres colocou em foco o que antes parecia natural: a violência, coisificação, discriminação. Na Argentina, o movimento Ni Una Menos (Nenhuma a menos) em 2015, com um programa mínimo mas com uma potência enorme – parem de nos matar -, incendiou uma faísca que incendiou os movimentos operários e de luta pela legalização do aborto. As recentes denúncias de violência, assédio e abuso que partem de vítimas que decidiram sair do anonimato cumprem o importante papel aqui e lá de desnaturalizar essas práticas, e exigem novas reflexões e debates. A advogada feminista Ileana Arduino, quando o músico Gustavo Cordera foi repudiado pelas suas expressões misóginas, refletiu que “o que grande parte do feminismo faz de melhor é evidenciar o caráter estrutural das violências e exigir transformações radicais, porque se conformaria – frente ao desastre imperante – em seguir aprofundando o caminho punitivista?”

terça-feira 18 de dezembro de 2018| Edição do dia

ILUSTRAÇÃO: Iara Rueda
TRADUÇÃO: Letícia Parks

(...) Escrever sobre os escrachos por violências sexistas nas redes sociais não é cômodo, mas as contradições não são escolhidas, se instalam (...).

Quando os escrachos são protagonistas da TV, da cena musical ou do campo das organizações sociais e políticas, o impacto é maior. É forte ver como os mesmos que constroem prestígio e empatia por sua rebeldia ou sensibilidades frente a distintas formas de desigualdade e violência são apontados como violentos. Aquietar casos apenas a essas outras empatias não ajuda(...).

A consciência sobre abusos, subalternizações ou violência urge à ação. É horrível se dar conta dos níveis de agressão que sublimamos ou ocultamos, do muito que nos acostumaram a tolerar e silenciar. Não estalam no vazio, estão precedidos de muitas reflexões, em muitos casos do total fracasso por outras vias de contestação, todos interpelam coletivamente, renomeiam como violentas práticas naturalizadas pela cultura patriarcal e alteram porque apontam a hierarquia de gênero.

Tenho dúvidas se estas ações nos colocam em um lugar defensável com outras lutas, se nos colocam na lógica do linchamento que repudiamos, etc. Não me ocorreria retirar peso das razões daquelas que alegam pessoalmente ter sentido bem estar ou reparação ao fazê-lo. E se é raiva ou fúria, porque explicar tanto? Não bastaria olhar ao redor? Mas as perguntas se impõe politicamente, para além da experiência individual.

O universo dos relatos é diverso. Alguns poderiam ser delitos, muito graves, seguramente. Outros revelam manipulações ou abuso de posição e, ainda que não sejam delitos, são reconhecíveis como violência. Por trás da ressignificação e reconhecimento dessas violências, é inexorável se assumir vitima? Uma denuncia publica que aparece após o desgaste produzido pela indiferença ou encobrimento do espaço coletivo no qual as coisas ocorreram é igual uma denúncia que fala repentinamente de fatos muito remotos? Denunciar vínculos entre pares é o mesmo que denunciar figuras midiáticas ou chefes?

A denúncia nas redes é o mesmo método que não duvidaríamos em condenar em outros casos porque consolida estigmas e preconceitos, por exemplo as que cimentam estereótipos, como o uso de perfis de Facebook para perseguir pobres sob o mote de “caras machistas”? Ou estes escrachos em nome do feminismo se parecem à genealogia dos escrachos que se dirigiram aos genocidas quando o Estado decidiu não julgá-los, ou agora, quando abranda os controles? Como e quem os constrói, como ler, onde se inscrevem? É a mesma coisa que usemos esse recurso isoladamente ou em relação com outras ações feministas? Chocam ou se articulam?

Discutamos a questão para não ceder sem reflexões ao papel das vítimas que cedo ou tarde nos exige nos ajustar a guias muito conservadores, despolitizando nossas ações. Teríamos que pensar se para além do tempo do enfarto do estampido não haveria que pensar o risco de que nossos gritos acabem funcionando para expandir perseguições que não alteram a ordem das coisas. Chegaremos a distribuição igualitária de recursos, à desmercantilização dos afetos, à horizontalidade nas relações por essa via?

Faz sentido com a condição de vítimas de violências sexuais defender o mecanismo do anonimato em algumas denúncias? E se essa reivindicação for tomado pelo Estado e nos utilizarem para perseguir, o que seja e a quem seja, utilizando nossas lutas? Já pensamos nisso? (...).

E depois do escracho vem o que? Pensemos estratégias frente às contraofensivas conservadoras que chegam sob a invocação da injúria e a calúnia em cartas-documento? (...) Como resistiremos à cena judicial patriarcal se terminamos sendo denunciadas?

Por outro lado, reduzir tudo à emocionalidade e condenar apenas o método sem compreender a cena de violências que as precedem é subestimar as reivindicações de fundo. Vemos uma velocidade inusitada para sinalizar o caráter infamante do fenômeno, sensibilidade da que nem sinais podem haver – ou ao menos foi assim por muito tempo - , quando com risos, piadas ou indiferença assistimos passivamento mulheres serem tratadas como putas (não em um sentido reivindicatório), fáceis, baratas, quando não eram diretamente “dadas”, violentadas suas intimidades com vídeos roubados, zoadas com comentários pejorativos, tratadas de mil formas distintas como coisas. Nesse terreno o estigma não se adverte porque essas práticas respondem à ordem patriarcalmente naturalizada das coisas. Não gostaria de alentar a ideia de que esse fenômeno se reduz a pura devolução de violências coisificantes. Nada parecido com isso.

Há uma densidade muito mais complexa que a pura vingança, e se vamos falar de danos, falemos de todos (...).

O que está ocorrendo diz algo sobre os denunciados e sobre os que denunciam, mas fala também das solidariedades misóginas que excedem os envolvidos diretamente. Circulam coisas difíceis de escutar e de discutir: o escracho em si mesmo pode parecer irritante, mas não revisar essa tática tampouco nos mantém resguardados dos custos: do backlash das mitômanas, da descrança, da banalização de nossas reivindicações, a reedição de moralidades conservadoras sobre nossas liberdades, a devolução em forma de denúncias contra os que denunciam ou a captura instrumental punitiva e o fenômeno da delação como modo de relação são exemplos disso.
(...) As perguntas que nos possamos fazer não estão fechadas na comodidade ou incomodidade que produza nxs outrxs a experiência do escracho ou a denúncia popular – seja se sabemos de “incomodidades”em primeira pessoa -, mais bem acredito que devem ir no sentido das implicações que tenha as distintas intervenções, em termos de vidas substancialmente mais livres de violências, com os meios e os jeitos que também nos libertam.




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