Cultura

HISTÓRIA/LITERATURA

Quem precisa de heróis? Educadores e artistas de esquerda sabem a resposta!

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 11 de fevereiro| Edição do dia

Para conservadores delirantes não basta duvidar da teoria heliocêntrica ou da evolução das espécies. Eles não sossegam enquanto a cultura não for convertida em chavões patrióticos. É com passos de rinoceronte que tenta-se esmagar as conquistas críticas da literatura, da historiografia e da filosofia. Para os reacionários do momento interessa promover o culto aos pretensos heróis da pátria. O objetivo destas pessoas é simplesmente amputar a crítica no estudo da história do Brasil. Um professor não poderia desconstruir mitos mas sim perpetua-los. Um pintor e um cineasta não poderiam denunciar atrocidades históricas ou ridicularizar representantes das elites do passado, mas retratar de modo exaltado e caretíssimo os “ grandiosos personagens históricos “. Um jornalista não poderia analisar os fatos diários mas descrever as “ façanhas “ dos governantes. SOS: o pensamento crítico precisa de socorro!

Nas sociedades clássicas o herói das epopeias é um semideus que age de acordo com a vontade dos deuses. Ao narrar as aventuras do herói, o poeta da antiguidade não aborda a decadência da sua civilização mas a sua “ gloria “. No Brasil dos nossos dias isto ocorre de maneira tragicômica, já que além de não existir nada de glorioso, estamos muito distantes do talento e das qualidades estéticas da poesia de Homero ou Virgílio(e mesmo assim, a poesia da antiguidade clássica não é exatamente gloriosa, afinal a escravidão foi sua base e marca registrada). No Brasil de hoje nos deparamos com um discurso que nascido das lições bíblicas fundamentalistas e das taras bélicas, procura promover sentimentos pátrios, encobrindo com um véu cheio de buracos os séculos de opressão. Os trabalhadores da cultura que não perdem de vista o caráter crítico do seu ofício, sabem da necessidade de arrancar de vez este véu esburacado e desmascarar os heróis que sempre representaram e defenderam as classes dominantes.

Contar uma historinha a partir dos feitos de um grande herói é fácil, é mamão com açúcar. Basta combinar em ritmo folhetinesco as imagens de um líder valente, um cavalo imponente e uma montanha. Pronto: lá está o herói pairando acima dos mortais, no centro da ação, conduzindo o povo pelos caminhos da história. Os coadjuvantes da ação( as massas anônimas que possuem mãos calosas, passam por dificuldades materiais e muitas vezes pertencem a povos conquistados) seriam seres que existiriam em função do herói, sendo portanto descartáveis e podendo assim morrer aos montes em batalhas empreendidas pelos guardiões da pátria amada . É assim que devemos narrar o processo histórico ? A análise crítica expressa na narrativa histórica não estabelece uma seleção artificial e unilateral dos fatos. As relações de produção e as forças produtivas de uma sociedade(e suas relações com sociedades que possuem outras realidades produtivas) estabelecem pressupostos para a representação de um acontecimento histórico: não é o herói individual a força essencial do processo histórico, mas sim as classes sociais. Um líder, um partido, uma ideia acabam sempre por expressar interesses objetivos, interesses de classe. O que seria olhar a história de maneira crítica? É saber ir além da aparência dos fatos, questionando a maneira como as informações históricas chegam até nós e denunciando os interesses ocultos presentes nas representações do passado.

Não espanta o fato dos conservadores que atuam hoje na Educação e na cultura, dirigirem seus esforços para destruir o pensamento crítico: ensurdecer o país com paixões patrióticas é garantir que a representação realista dos acontecimentos não chegue até os trabalhadores. A criação de heróis em nome da exaltação patriótica é produção(e reprodução) de ideologia barata. Quem seriam os heróis da história do Brasil? Seriam os “ bravos “ Bandeirantes, que em suas motivações nada heroicas buscavam pedras preciosas, destruíam aldeias indígenas, escravizavam povos nativos e capturavam escravos fugitivos? Seriam os líderes dos primórdios da República, que massacraram o arraial de Canudos e os rebeldes da Guerra do Contestado? Se existem heróis liderando as narrativas então os antagonistas, os vilões, seriam aqueles que “não se comportaram bem”, aqueles que por exemplo não aceitaram o jugo da escravidão e da miséria. O que fala mais alto numa história escrita ou contada de modo realista, os sentimentos exaltadores da pátria ou as condições reais de existência das massas?

Ao longo do século XIX, o projeto de construção da identidade do Estado brasileiro mobilizou pintores, romancistas, poetas e historiadores para criarem uma visão romântica/heroica do nosso passado. Fica difícil sustentar este tipo de ilusão patriótica hoje, visto que a memória é um campo de batalha no qual é impossível pintar um retrato bonitinho da História do Brasil. Registra-se entre os períodos da América portuguesa, do Reino Unido a Portugal e Algarves e do Império brasileiro uma série de projetos políticos separatistas e experiências de rebeldia expressas sobretudo nas revoltas populares. De quais heróis estamos falando cara pálida? Este rompante patriótico sustentando hoje pelos conservadores refere-se a pátria de quais classes e grupos sociais? Um conservador espumante poderia acusar a esquerda de também produzir heróis que no fundo não passariam de “ bandidos “ ou “ vagabundos “. Mas a dialética materialista não permite a mera inversão de papeis, o que fatalmente faria da história uma novela com mocinhos e bandidos. Valorizar a liderança e até mesmo admirar os feitos de rebeldes e revolucionários, nada tem a ver com a distorção e a idealização dos fatos históricos.

Nossas narrativas históricas e nossas manifestações artísticas não apenas não impedem como exigem expor os erros, os limites e as contradições das lideranças que posicionaram-se ao lado dos oprimidos. A infabilidade do líder de esquerda é pura besteira, é uma ilusão oposta ao entendimento dialético do processo histórico(e por favor, se os stalinistas incorreram sobre este erro nas obras de arte do Realismo Socialista, não confundam isso com o Materialismo Histórico). O mérito heroico de um líder revolucionário não está no muque ou na visão de Raio X mas na sua habilidade política de coordenar/ contribuir decisivamente com a canalização das energias, dos feitos e dos desejos das massas. Aliás são as massas que compenetradas nos seus interesses históricos, libertas das ilusões do patriotismo, podem realizar os atos heroicos que inscrevem-se na vida coletiva dos povos.

Não pretende-se aqui um mero flá flú entre a crítica de esquerda e o atual surto conservador. Existem muito mais coisas em jogo: precisamos zelar para que escritores produzam sem temer que seus livros e artigos sejam queimados, que atores desempenhem seus papeis sem serem calados, que professores e estudantes debatam o conhecimento sem correrem o risco de serem penalizados. A face crítica da cultura não pode ser reprimida por gente que quer conduzir a memória do país na base da intimidação ideológica. Alguns acreditam que os heróis existem para salvar o povo. Mas na realidade são as massas que fazem história.




Tópicos relacionados

Arte   /    Educação   /    Literatura   /    História   /    Cultura

Comentários

Comentar